A Feira de São Mateus, que acontece anualmente em Viseu, é muito mais do que um certame popular: é um evento com mais de seis séculos de história. Compreender as suas origens e a sua evolução permite ao visitante valorizar cada recanto do recinto e cada tradição que ali perdura.
Criada por uma carta régia em 1392, a feira é frequentemente descrita como a mais antiga da Península Ibérica, uma designação que lhe é atribuída em fontes documentais e na comunicação do Arquivo Distrital de Viseu. Ao longo dos séculos, o evento ultrapassou crises, mudou de local e modernizou-se, transformando-se naquilo que os organizadores descrevem como "uma cidade dentro da cidade".
O que é a Feira de São Mateus
A Feira de São Mateus é um dos maiores certames populares de Portugal, realizado anualmente em Viseu, geralmente entre agosto e setembro, embora as datas exatas variem de ano para ano. O evento ocupa uma vasta área no Campo de Viriato, onde se instalam centenas de expositores, divertimentos, restaurantes e palcos para espetáculos.
Para além da componente lúdica, a feira tem uma forte tradição comercial, que remonta às suas origens como feira franca medieval. Essa herança explica a presença de venda de artesanato, equipamentos, automóveis e outros produtos, que convive com a gastronomia e a música popular.
Origens medievais: a Carta de Feira de D. João I (1392)
A história documentada da Feira de São Mateus começa a 10 de janeiro de 1392, quando o rei D. João I concedeu uma Carta de Feira à cidade de Viseu. Este documento régio estabelecia a realização de uma feira franca anual, um privilégio que atraía mercadores e consumidores de toda a região.
Segundo o Arquivo Distrital de Viseu, esta carta torna a feira "a mais antiga da Península Ibérica", um título que os organizadores e a imprensa costumam recordar. A data da feira foi associada ao dia de São Mateus, celebrado a 21 de setembro, que é também o feriado municipal de Viseu.
A antiga Feira Franca e o seu papel económico
No contexto medieval, uma feira franca era um mercado de periodicidade anual ou sazonal, ao qual os senhores concediam isenções fiscais e proteção especial, para atrair mercadores de longe. Estas feiras eram fundamentais para o comércio de produtos exóticos ou de luxo, que não circulavam nos mercados semanais.
A Feira Franca de Viseu, como era inicialmente conhecida, cumpria exatamente esse papel. O facto de se realizar em setembro, época de colheitas, favorecia a troca de produtos agrícolas e de gado, além de proporcionar um encontro anual entre populações rurais e urbanas.
Mudança de local: da Cava de Viriato ao Campo de Viriato
A história da feira confunde-se com a do seu espaço. Durante o reinado de D. João I, a feira terá passado a realizar-se na área da Cava de Viriato, uma estrutura arqueológica com uma estátua dedicada ao líder lusitano. Essa localização, junto ao centro de Viseu, foi durante séculos o coração do certame.
Com o crescimento da cidade e a própria evolução do evento, o recinto foi-se deslocando para o espaço que hoje é conhecido como Campo de Viriato. É nesse amplo espaço, hoje integrado na cidade, que a feira se instala atualmente, ocupando cerca de dez hectares.
Testemunhos documentais do século XIX
A riqueza histórica da feira é comprovada por documentos que sobreviveram até hoje. Um exemplo é o "Mapa estatístico do valor dos objectos expostos à venda na feira franca de São Mateus", datado de 27 de setembro de 1872, que se encontra no Arquivo Distrital de Viseu. Este documento regista o valor dos produtos expostos e das vendas realizadas.
A existência deste tipo de registos administrativos sublinha a importância económica que a feira tinha para o concelho. No século XIX, a feira já atraía comerciantes de várias regiões do país, contribuindo para a prosperidade de Viseu.
Crise e renovação em 1927
Como qualquer instituição com séculos de vida, a Feira de São Mateus conheceu períodos de declínio. Em 1927, o evento esteve à beira da extinção, devido à falta de interesse e à concorrência de outras formas de lazer. Nesse ano, a organização esforçou-se por lançar um projeto de renovação, com criação de expositores, dinamização de concertos e concursos e a implementação da tradição do fogo de artifício.
Essas medidas foram essenciais para salvar a feira da extinção e lançar as bases do evento moderno. A partir daí, a feira ganhou novo fôlego e as "grandes iluminações artísticas" tornaram-se uma das suas imagens de marca ao longo do século XX.
Século XX: iluminações e tradições consolidadas
Ao longo do século XX, a Feira de São Mateus consolidou muitas das tradições que ainda hoje a caracterizam. As iluminações artísticas, que já eram uma atração no início do século, foram-se aperfeiçoando e tornaram-se um dos elementos mais fotografados do recinto.
A música popular e os espetáculos ao ar livre ganharam também um papel central. Nas décadas de 1940 e 1950, os cartazes de publicidade à feira mostram a importância do evento como palco de concertos e de encontro social, não apenas para os viseenses, mas para toda a região.
Reorganização do espaço: intervenções POLIS (2003-2005)
Entre 2003 e 2005, a feira sofreu uma profunda transformação no âmbito do programa POLIS, uma iniciativa governamental para a requalificação urbana. As obras levaram ao desaparecimento do emblemático picadeiro – uma avenida que atravessava o recinto – e dos antigos pavilhões de exposições, dando lugar ao Pavilhão Multiusos da cidade.
A intervenção reordenou o espaço físico da feira, tornando-o mais moderno e funcional, mas também apagou algumas memórias. O picadeiro, que era uma das referências dos visitantes, foi substituído por novas infraestruturas, embora o seu espírito tenha regressado mais tarde, como veremos.
Revitalização recente a partir de 2015
Em 2015, o Município de Viseu iniciou um processo de revitalização e modernização da feira, com alterações na programação para atrair públicos mais jovens e um aumento do investimento em publicidade. A Viseu Marca, criada em 2016, tornou-se a entidade organizadora do evento.
Uma das mudanças mais emblemáticas foi a recriação do "mítico picadeiro", a avenida que atravessa todo o recinto da feira, desde a Porta de Viriato até ao palco. Este elemento, que tinha desaparecido com as obras do POLIS, voltou a ser o eixo central do certame, reavivando a memória do espaço.
A aposta na modernização continuou ao longo dos anos seguintes, com o reforço das infraestruturas, como os pórticos de luz e os novos espaços de restauração. A feira afirma-se hoje como um evento de dimensão nacional, com um volume de negócios superior a 80 milhões de euros e mais de um milhão de visitantes registados em 2019.
A Feira hoje e a sua importância
A Feira de São Mateus é descrita pelos organizadores como "uma cidade dentro de uma cidade". Ao entrar no recinto, o visitante encontra uma oferta multidisciplinar: música popular e moderna, gastronomia, artesanato, divertimentos, exposições e comércio de todo o tipo. A feira atrai públicos de todas as idades e origens, tornando-se um ponto de encontro para a comunidade.
A dimensão económica do evento é considerável, com um impacto significativo na economia local. Vereadores e organizadores sublinham que a feira é "um pilar do concelho e um motor para a região", sublinhando o seu papel não só cultural, mas também económico.
Curiosidades e marcos históricos para visitantes
Quem visita a Feira de São Mateus pode reparar em alguns detalhes que remetem para a sua longa história. A Porta de Viriato, uma das entradas principais, é um desses marcos. O Campo de Viriato, onde o evento se realiza, evoca a figura do chefe lusitano que resistiu aos romanos, e que está presente na estátua localizada na Cava de Viriato.
Outra curiosidade é o sistema de contagem de visitantes, que permitiu à organização distinguir o "Visitante 1 Milhão". Este dispositivo, instalado para segurança, tornou-se também uma forma de celebrar o sucesso do certame.
A feira tem também uma forte ligação à gastronomia, com farturas, chocolates Regina, enguias e outros petiscos que fazem parte da memória afetiva de muitos viseenses. Estes sabores fazem parte das conversas e das recordações dos visitantes, especialmente daqueles que não podem ir todos os anos.
Plan Your Visit
Conhecer a história da Feira de São Mateus enriquece a experiência de quem a visita. Cada recanto do Campo de Viriato tem camadas de memórias que remontam ao século XIV, e compreender essa profundidade torna o passeio mais consciente. Antes de planear a ida, verifique as datas oficiais do certame, que são divulgadas anualmente pela organização, e consulte o programa para aproveitar ao máximo a sua visita. Para mais informações práticas, como o programa e os bilhetes, explore o nosso guia completo sobre a Feira de São Mateus in Viseu.
Frequently Asked Questions
Qual a história da Feira de São Mateus?
A Feira de São Mateus, em Viseu, foi criada por uma carta régia de D. João I em 1392, tornando-se uma das feiras mais antigas da Península Ibérica. Originalmente conhecida como Feira Franca, realizava-se anualmente em setembro e, ao longo dos séculos, mudou de local, enfrentou crises e modernizou-se, tornando-se o grande certame popular que é hoje.
Em que local se realiza atualmente a Feira de São Mateus?
A Feira de São Mateus realiza-se anualmente no Campo de Viriato, em Viseu. O espaço, com cerca de dez hectares, acolhe os expositores, divertimentos e palcos do evento. Historicamente, a feira também se realizou na zona da Cava de Viriato, como referem os documentos do reinado de D. João I.
A Feira de São Mateus é a mais antiga da Península Ibérica?
Segundo o Arquivo Distrital de Viseu, a Feira de São Mateus é considerada a mais antiga da Península Ibérica, tendo sido criada pela Carta de Feira concedida por D. João I em 1392. Contudo, essa designação é atribuída em fontes documentais e deve ser interpretada com as devidas reservas, dado que outras feiras podem reivindicar antiguidade semelhante.



